Página em branco com pensamentos, poesias, fotografias, filmes, músicas, pinturas.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Eu


Estava
Em um hotel antigo
Em feitio de coliseu

Era noite e
Eu vestia minha pele
E com minha pele apenas

Enfim descobri como
Era estar em paz
E em mim

Essa coisa de pele
Essencial
É

(Scheilla Franca)

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Poema sobre sonho


é três de agosto do outro lado
da margem te vejo abraçado à
barriga que vai te parir.e eu

na margem daqui no mesmo três
baixo a vista e dou de cara
na flor d'água da margem de mim

com a máscara elástica que me estica
as papadas as orelhas o nariz e me
abraço à máscara à margem à água

que me permite
partir no tempo
três nós

(Scheilla Franca)

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Lembranças (de Pai Joaquim da Cachoeira)


Eu sou forte
Eu sou filho de Oxalá
Zambi é meu guia
Eu não vou fraquejar

A poesia vem que vem
Vem que tem que vim
Vem do tempo do tronco
Em que apanhava e pensava assim

Eu sou forte
Eu sou filho de Oxalá
Zambi é meu guia
Eu não vou fraquejar

Nego velho não escrivinha
Nego velho não sabe escrivinhá
Nego velho veio plantar roseira
Pra esperar o Sol chegar

Filhas, não queiram ser pau ferro, queiram não
Sejam como o bambu que beija o chão
Tenha fé no teu caminhar, faça sua parte
Do outro lado sempre há quem vai ajudar

Nego velho não escrivinha
Nego velho não sabe escrivinhar
Nego velho sabe trabalhar
Com as bençãos de Oxalá

Eu já vou, já vou
Eu já vou pra lá
O meu Pai me chama
Eu não posso demorar

(Pai Joaquim da Cachoeira e Scheilla Franca)

terça-feira, 6 de junho de 2017

9 de copas



Ao te ver me ver
No Tempo de relógio algum
Fico.

Fico encruzilhada nesse encontro
De seu Mar revolto
Com minhas águas Espelhadas

Descendo as escadas de Antônio,
senhor dos Caminhos, Carmo, Carma
Encruzilhada

Sigo.

Scheilla Franca

domingo, 7 de maio de 2017

Mar de Janeiro




As coisas tão nossas
Hão de se tornar nossas
No Tempo de um deus

As coisas tão nossas
Não as posso doar
Nem eu...

Ao mar, ao mar
Em desencanto, em agonia
Pra te abandonar eu vou ao mar
Com nossas caixas vazias.

E em segundos me vejo naufragar
Confundi nossos vazios e
Não fosse você saber nadar
Eu estaria ao fundo, bem fundo, ao mar...

A cantar, sozinha, a cantar
As nossas coisas tão nossas
Que hão de se tornar nossas
No Tempo de um deus

As coisas tão nossas
Não as posso doar
Nem ao mar...
Nem eu.

(Scheilla Franca)

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Nuvem para Lili



Chuva caímos
Agora evaporando
Era nuvem e foi tão bom
Mas seremos ainda
E 70 vezes 7 mais

Não tarda o tempo
Vai nos devolver
Á Terra pra ser
Maçã e caqui e bicho de goiaba
Pra plantar colher e trocar
de pele e chupar cana e assobiar pra
Tornar a evaporar pra brotar nuvem
E precipitar na hora exata
Caindo de Amor

Até o dia de ser Tempo preciso
descobrir a alegria de
ser feijão no algodão
E ter carne e arco-íris.

Mas a saudade de ser nuvem
Às vezes me atropela
os pés de garoa.

(Scheilla Franca)

domingo, 6 de julho de 2014

Almoçando omelete



E então, os 12 ovos estavam quebrados. Minha mãe diria: normal, isso sempre acontece com você! Meu pai diria: tome mais dinheiro, vá comprar mais. Minhas amigas diriam: isso é tão você, Scheilla... sempre distraída... sempre no mundo da lua... sempre sem cuidado... (Scheillinha Furacao! rs) O que me encabulou é que... não. Eu não estava distraída. Não dessa vez. Diria que eu estava (e talvez tenha estado a minha vida inteira!) concentrada em me tornar distraída, com todo o cuidado do mundo para ser descuidada. Concentrada em provar a mim mesmo que eu quebraria os ovos, porque sou distraída, desleixada, descuidada. Porque nunca estou lá. Mas dessa vez eu estava lá. E vi tudo acontecer. Vi quando fui pegar os ovos. E no momento que tirei os ovos da prateleira pensei: eu vou quebra-los. Vai dar merda. Mas eu estava só. E precisava fazer mercado. Eu preciso dos ovos. Usei os que estavam na cestinha de Di e preciso repor antes que ele volte. Ok, vou levar assim mesmo. Preciso. Pão, queijo, manteiga, leite condensado. Bota tudo na cestinha. Pão, queijo, manteiga, leite condensado. Boto todos sobre o balcão. Os ovos. Dou um sorriso leve, de canto de boca. Pensamento imediato: porque eu tenho que vir ao mercado comprar ovos? Eu vou acabar quebrando isso... O que tem que ser feito, tem que ser feito. Ovos no balcão. Pagos. Meus. 3 sacolas. Subo os três lances de escadas que me levam ao 103. Paro diante da porta branca. Lembro que a chave está no meu bolso. Faço uma manobra simples para pegar a chave do bolso. E então, os 12 ovos estavam quebrados. Das 3 sacolas, a única que caiu foi a dos ovos. E dessa vez eu estava lá, eu estava atenta. Eu estava ali. Vi tudo acontecer. Vi tudo o que eu fiz. Eu não estava distraída... desde o primeiro momento estou – muito, exaustivamente, diria até! – concentrada em quebrar os ovos. Concentrada em confirmar a mim mesma que eu sou distraída, que não sou habilidosa, que erro por desleixo e mereço ser punida ou ter meus movimentos controlados. Mas dessa vez, eu pude ver meus movimentosde maneira clara, olhos abertos. Era como se tudo acontecesse em slow motion. Todos eles, desde o mercado até a porta de casa, com os ovos sangrando amarelo nos meus pés. Valeu a pena, dessa vez, todo o cuidado. O que eu quero dizer com isso? Quebrei os ovos e me permiti saborear a omelete. Sem culpa. Minha analista teria orgulho de mim. Saudade dela.